Sing Sing - um canto de esperança
Quando estamos presos, tudo que desejamos é um canto de esperança, um canto no qual possamos nos sentir livres da prisão. É comum se pensar na prisão como o oposto da liberdade, que ela é a melhor forma de punição para aqueles que não sabem viver em sociedade. A prisão, porém, não é o oposto de liberdade, mas de sociedade. Estar preso é estar só. Não ter nenhuma companhia, ninguém para lhe ajudar, lhe proteger, temer a todos e até si mesmo, não confiar na própria sombra, esta que está consigo por toda vida. Não ter a quem amar e quem o ame, não ter um amado e nem ser amado. Não ter uma voz que lhe dê, enfim, esperança de liberdade. Sing Sing (2023), filme de Greg Kwedar é este canto de esparança de liberdade, canto que se repete, por estar ali sempre à espera, parado, um lugar para lhe fazer livre a cada momento e em cada momento. Não importa o tempo.
Muitas vezes nos sentimos presos sem estar na prisão. Sentimo-nos preso em casa, na escola, no trabalho, no hospital, na cidade, no Exército, na cidade, Estado, país, nação, pátria, continente, Terra, ou ainda, preso à família, amigos(as), namorado(a), companheiro(a), esposo(a), ao patrão(oa), ao médico(a), à patente, à politica, enfim, à sociedade que resume todas as relações sociais. Queremos nos livrar de tudo isso, ser livre daquilo que nos prende, da sociedade, entrar em órbita da Terra, olhando-a de longe como um lugar no qual não queremos mais viver, com pessoas que não queremos mais conviver. Queremos a morte para nos sentir vivos, isto é, livres realmente de tudo, separar a alma do corpo, como desejava Platão diante do julgamento e condenação de Sócrates, o próprio Sócrates não desejando mais a vida com todas as pessoas com quem convivia e discutia frequentemente. Morte que é o lugar de todos os desesperançados com a vida na Terra, quiçá, no universo em toda sua imensidão soturna, abominável, onde ninguém nos conhece, nem mesmo nós nos conhecemos, pois, eis o problema maior, sentimo-nos presos também a nós mesmos, incapazes de mudar quem somos.
É quando nos deparamos com quem somos que a prisão adquire sua maior imensidão, se torna universal. Percebemos que somos um ser insignificante, apenas um dentre zilhões de seres no universo, conhecidos e desconhecidos, que somos um indivíduo, mas apenas um dentre todos os zilhões de indivíduos. Percebemos que não há nada que signifique nossas vidas, ou ainda, que, paradoxalmente, nossas vidas significam nada. Não há ninguém à nossa espera, nem estamos à espera de ninguém, nem mesmo nós de nós mesmos. A prisão é a total ausência de esperança na vida, quando a vida perde todo o sentido. A morte é vista, assim, como a solução para quem perdeu a esperança na vida, na sua vida e na do outro, na sua vida em relação à do outro e do outro em relação à sua, mas a morte é o verdadeiro problema da perda da esperança na vida na prisão, a busca de um canto de liberdade na morte, o Caribe, o Paraíso, pois a morte é a própria prisão.
Ninguém escapa da morte, a prisão da vida, o lugar no qual a vida perde toda esperança de ser livre. Pensar em ser livre na morte é pensar a morte como um lugar de passagem da vida à outra vida. Contudo, a outra vida não é a vida do outro, é a mesma vida, a vida da mesma alma, do mesmo ser que vivo. Pode-se mudar o corpo da alma, vir a ser animal em vez de humano, mulher em vez de homem, negro em vez de branco, de um lugar para outro e de uma sociedade para outra no tempo, mas a alma não muda. A alma é a prisão do ser, e não simplesmente do corpo como pensou Foucault ao inverter o platonismo.
Não é ao corpo que o ser estar preso, é à alma, isto é, a si mesmo. Quando um indíviduo é punido com a prisão, se diz que é para que tenha consciência de sua ação em relação contrária ao outro, mas, também em relação contrária a si mesmo. É devido à liberdade de ação em detrimento do outro, e de si mesmo, que um indivíduo é punido com a prisão. A prisão é o lugar para adquirir consciência de sua ação livre contrária ao outro, isto é, à sociedade. É a liberdade que se opõe, neste sentido, à sociedade, não a prisão. A prisão é o lugar no qual se aprende a viver em sociedade, a reconhecer a "verdadeira liberdade".
Prender o indivíduo é fazer dele um indivíduo sociável, um indivíduo que tem consciência da sua relação com o outro. É preciso impor um limite à liberdade de um indivíduo com a liberdade de outro indivíduo. Opor um indivíduo ao outro. Prender um ao outro. Tornar a relação de um individuo com outro uma prisão. Ser sociável é estar preso ao outro. Sem direito à liberdade de ação, de agir livremente. Para estar preso ao outro é preciso, primeiro, estar preso a si mesmo. Ser um indívíduo.
A sociedade moderna é valorizada pelo pensamento do ser liberal, o indivíduo, e conservador, do indivíduo, isto é, do indivíduo liberal e conservador de si mesmo, ou seja, do homem (ou mulher, ou qualquer gênero, ou nenhum) liberal e conservador de si mesmo enquanto indivíduo livre, que tem, por natureza e por direito humano individual, conservar sua liberdade em detrimento de outro indivíduo livre e, neste sentido, é ela mesma que aprisiona o homem em sua individualidade contra a sociedade. O indivíduo é a prisão da sociedade moderna, da qual ele não pode escapar. A sociedade moderna é a prisão do indivíduo sem que possa se dividir, ser outro, estar com outro, ser divíduo.
É na prisão que o indivíduo tem consciência, aprende, que está preso na sociedade, em princípio, na sociedade que define o indivíduo que ele é, e o que ele é no seu lugar mais íntimo, na sua alma, no seu eu, enquanto sujeito, homem. É na prisão que ele aprende a conhecer a si mesmo, a si mesmo em sua alma, a si mesmo como homem (ou de outro gênero), a si mesmo como indivíduo e que ninguém pode estar no seu lugar, dividir o mesmo lugar que ele, dividir a mesma cela, e célula, que ele é. Somente ele pode se divivir com outro, consigo mesmo, estar em sociedade com o outro e consigo. Estar em paz com a prisão que é a sociedade, que é o outro e ele mesmo, e não em guerra, sedição, dissídio consigo e com o outro.
A prisão é o canto de esperança do indivíduo na sociedade: o cantinho do pensamento que se aprende na escola. O lugar no qual o ser humano começa a filosofar modernamente como fez Descartes, isto é, ter consciência, conhecimento de si e do outro, e da relação de si com outro. A prisão não é simplesmente parte da sociedade, o lugar para o qual vão aqueles que são excluídos pela sociedade, ou o modelo das relações sociais punitivas como pensou Foucault e que basta acabar coma punição que viveremos numa sociedade alternativa. A prisão é a sociedade como um todo. É a parte essencial do todo, o meio que divide o todo em partes e, ao mesmo tempo, que não pode ser dividido, não pode ser dividido ao meio novamente, a não ser por uma abstração do meio ao meio, que, no fim, é o indivisível, o indivíduo em si mesmo, aquilo que não se divide em partes, que não mais se reparte, não se compartilha, está preso em si, é a prisão para si mesmo.
A prisão enquanto canto de esperança do indivíduo na sociedade, o último lugar para o indivíduo se conhecer como indivíduo na sociedade, Sing Sing, é o canto do cisne ou do galo que aceita sua morte de véspera, que antecipa sua morte, se prepara para ela, o canto da repetição da vida após a morte, de uma vida após a morte, outra morte, e mais outra. Canto gregoriano, monofônico, de uma única voz, sem acompanhamento, nem mesmo de si mesmo, anônimo, espiritual, numa língua morta, de um ser já morto em corpo, do qual só lhe resta a alma. É o canto de uma voz teatral, num palco, voz entonada e entronada, a voz de um rei, ou de um príncipe aspirante a rei, ao lugar do rei, ao trono, perdido em seu ser ou não ser, preso ao pensamento se vive ou se morre, ou se dorme, para, enfim, no fim, na morte, reviver. É o canto do indivíduo que se afirma como ser individual como os outros com um papel a representar na sociedade, com um lugar de fala na sociedade como num palco muito bem determinado para si como homem, ou de qualquer gênero, na terra, ou de qualquer terra, numa etnia, raça, sexualidade, ou de qualquer etnia, raça e sexualidade a qual viverá preso pelo resto da vida e outra vida, e mais outra, repetidamente.
Que cada ser se identifique como indivíduo, isto é, que não se divida em dois, não se reparta, não se diferencie, não se compartilhe, é a parte essencial da socialização, da sociabilidade, da sociedade moderna. O indíviduo deve ser idêntico, não importa que indivíduo é. Ele deve estar, ser, ficar só num canto, numa cela, numa solitária, numa prisão atroz consigo mesmo e sem mais ninguém, sing, e a solidão, o canto, a cela, a solitária, a prisão consigo e sem mais ninguém deve se repetir no outro, nos outros, sing, sing. Faça sol ou chuva, sing in the rain, cotidianamente. Somente na repetição do canto em outro canto idêntico, de cada um no seu canto ou cada um no seu quadrado, sua cela, é possível a existência do indivíduo moderno que canta em encantamento que se encanta com a própria morte, a impossibilidade de escapar do canto no qual foi posto na sociedade, na vida, por toda a vida, canto animado, que vem da alma, espiritual, seu espírito que se exprime e se espreme em si e com outro em sociedade.
Sing Sing é um canto de desesperança e de esperança em outra vida, que é a mesma que a sua, uma mesma vida desesperançada na sociedade moderna. Vida que se encanta com a vida no canto de uma prisão, de uma cela, de um palco, onde pode se ver livre da vida em sociedade, a mesma dentro e fora da prisão, pois, a prisão é parte da sociedade e é a sociedade, aquilo mesmo que aprisiona o indivíduo como aquilo que não pode se dividir, se partir, se diferenciar, repartir, compartilhar. A sociedade é o indivíduo, e o indivíduo é a sociedade, e ambos são a prisão. O indivíduo é aquele que está preso dentro ou fora da prisão. A sociedade é o indivíduo preso dentro e fora dele mesmo. A prisão é o lugar do indivíduo e da sociedade. É o canto da esperança do indivíduo na sociedade e da sociedade no indivíduo e o canto da desesperança no qual, para onde se olhe, não há liberdade, a não ser, fora da prisão, isro é, fora do indivíduo, da sociedade, de Sing Sing.
Como escapar do que se é, indivíduo, da prisão, ser indivíduo, da sociedade, da individualidade, da repetição do canto monótono Sing Sing, de uma única voz, de uma univocidade do ser, anônimo, e cantar livremente sem, portanto, se sentir preso no canto, num canto, em si mesmo, no outro, ao outro, com o outro? Cantar em silêncio, um canto de morte, canto fúnebre, de desesperança, de antecipação da morte, preparação para ela, um canto para os deuses para reviver como si mesmo, em alma, em espírito, novamente, na verdade, continuar o mesmo em alma e espírito é o único canto que torna o ser "livre" de si, do outro, da sociedade, em sociedade? Sing, Sing...? Não é possível cantar diferente, Sing Song, Sung, Seng, Sang, ou em qualquer variação diferente de tons? Com uma tonalidade diferente?
Um tom pra cantarUm tom pra falarUm tom pra viverUm tom para a corUm tom para o somUm tom para o ser[..]Um tom é um bom lugar[...]Um tom pra gritarUm tom pra calarUm tom pra dizerUm tom para a vozUm tom para mimUm tom pra vocêUm tom para todos nós[...]Nova felicidadeNovo tudo de bomDeixa-se cantar um tom
Se o tom da prisão, do indivíduo, da sociedade, é sempre o mesmo, tom uníssono, unívoco, imodificável, lugar de fala de todos que vivem em sociedade, e desejam viver em socidade, numa cela, como indivíduos presos na sociedade, não necessariamente na prisão, aceitando estar preso na sociedade mesmo sem estar na prisão, determinado a ser preso, indivíduo, sociável, Sing Sing, o tom pode mudar, variar, ser diferente, não se repetir indefinidamente como o mesmo. Se é na prisão que o indivíduo se encontra preso na sociedade, e à socidade, no mais íntimo de si, em sua alma, espírito, essência, em seu conceito de indivíduo, e fora dela, na sociedade, em sociedade, que seu mais íntimo se repete enquanto íntimo do outro, íntimo ao outro, é na amizade com outro preso igual a si que ele se sente livre sem ser livre.
A amizade é a liberdade do indivíduo preso em sociedade. É o canto de esperança do desesperançado. É o canto que livra da morte na prisão. Ter um amigo na prisão, na sociedade, é se sentir livre de si, do outro, dos outros, livre do canto que lhe prende enquanto indivíduo na sociedade, a prisão. É no mais íntimo de si que se encontra o outro que é igual a si mesmo na prisão, isto é, que se encontra a amizade, o ser amado, ter um amado, se dizer amado, na prisão, e que, sendo seu amigo, isto é, sendo amigo dele e ele de si, não mais se está preso, estão livres, são diferentes de si mesmos.
É a diferença de si mesmo e do outro na amizade, na diferença que acontece conosco e com o outro quando temos amigos, que encontramos a Nova felicidade/ Novo tudo de bom/Deixa-se [de] cantar um tom, num tom, num mesmo tom, no Sing, Sing, na prisão do indíviduo em sociedade, e nosso tom de voz se diversifica em cantos melódicos com outro tom, o nosso e de outros. É no momento em que ouvimos a voz de um amigo que nosso to de voz muda, a prisão muda, a sociedade muda. Não somos mais indivíduos, somos dividuos, seres que compartilham com os outros a prisão e, nela, aprendem a ser livres não em sociedade, e, sim, apesar dela, da prisão na qual nos faz e nos ensina a viver.
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