Comemoração do Ano Novo
Sempre comemoramos o Ano Novo, nunca o Ano Velho. Sempre o início do ano, nunca o fim dele. Comemorarmos o fim, qualquer que seja, é comemorar a morte, não a vida. E se há uma comemoração do fim é porque se sobrevive. Sobreviver ao fim do ano é sobreviver ao tempo, à morte, a vida. É tudo que desejamos quando comemoramos o Ano Novo.
Não importa a cultura, o Ano Novo é comemorado, ou seja, toda cultura comemora o Ano Novo. Faz parte da cultura mesma comemorar o Ano Novo. O Ano Novo é o princípio da cultura. Cultura da liberdade da vida e não na prisão dela numa moral em que se diz como, quando, de que modo, com que roupa, que bebida, com quem se deve comemorar o Ano Novo, isto é, a vida tal como ditada por um determinado hábito ou costume, por uma vestimenta, na qual a vida se investe no futuro como Ano Novo. Comemorar o Ano Novo não é um costume, a moral de um povo, ainda que na história do ser humano tenha se reduzido a isto e apenas as vestimentas do costume moral importe atualmente na comemoração do Ano Novo.
A redução da comemoração do Ano Novo ao costume moral de um povo é a redução do Ano Novo ao futuro da vida, à morte, não à sobrevivência da vida. Há uma preocupação com o fim do ano quando o que mais se necessita é não se preocupar. Comemorar o Ano Novo é comemorar a sobrevivência da vida às preocupações que o Ano Velho trouxe e o Ano Novo pode trazer na medida em que é pensado como futuro de um presente que passa num instante e não se consegue fazer nada. Comemorar o Ano Novo é comemorar a sobrevivência ao fim da modernidade, ao fim do instante do presente, ao fim do tempo presente, comemorar ter um tempo a mais para viver, que não se chegou ainda ao fim, ao futuro do tempo, ao fim dos tempos em segundos, minutos, horas, dias, meses no fim do ano.
Ao comemorarmos o Ano Novo pouco importa quanto tempo passa, passou ou passará em anos na história. O tempo medido em anos ou em instantes, em Cronos ou em Aion, é o que menos importa no Ano Novo, pois é o início de um tempo sem medida que comemoramos, o que não quer dizer desmedido, isto é, a negação do tempo no instante, de Cronos em Aion. Um tempo sem medida é um tempo no qual não há preocupação de calcular a medida e, tão pouco, a desmedida. Medir e desmedir não fazem parte do tempo do Ano Novo, este ano que chega quando esperamos e que parte com nossa esperança de um Tempo Novo, uma Vida Nova, uma Sobrevida, não de morte do tempo, da vida, da sobrevivência.
No ano passado, morremos, mas, neste ano, no Ano Novo, não morremos, sobrevivemos.
Por ser um tempo de preocupação com o fim do ano, por sua vez, há quem deseje apenas sobreviver ao Ano Novo. Não se comemora o Ano Novo. Se festeja o Ano Velho. Faz-se uma festa de comemoração para nela esquecer o ano que passou e pensar no ano que virá. Uma festa para fazer promessas de Ano Novo, ou seja, uma festa para se preocupar novamente com o ano, o que virá no futuro, portanto, um Ano nada Novo.
A cada promessa que se faz para o Ano Novo, o ano deixa de ser novo, se torna velho antes mesmo de nascer. Já nasce morto. Não há nenhuma esperança nele. Todas as esperanças já foram deixadas de lado, o que se tem são apenas preocupações que seja assim, assado, mal passado. Toda promessa traz consigo a tristeza pelo que passa, pelo que passou, pelo que passará ao Ano Novo. Não há nenhuma esperança numa promessa. A promessa é a falta de esperança. É o que resta, mas não de esperança. Não se espera o Ano Novo, deseja-se que chegue ao fim para que a promessa se realize, e a cada promessa não realizada se maldiz o Ano Novo como igual ao que passou, a um Ano Velho. Fazer do Ano Novo um Ano Velho é o que faz toda promessa de Ano Novo.
A contagem regressiva para o Ano Novo reduz o Ano Novo a um instante de alegria e felicidade por tudo ter acabado, por se sobreviver, mas também o início de novas preocupações para aqueles que fazem e que não fazem promessas de Ano Novo, mas pensam no Ano Novo como um futuro de novas realizações. Busca-se no Ano Novo viver realmente o que não se viveu ainda, uma vida que não se tem. A comemoração do Ano Novo é a de uma vida que falta, que está sempre faltando a cada Ano Novo, que o Ano Novo nunca traz como prometido. A realização do Ano Novo é, neste sentido, irrealizável. O Ano Novo nunca se realiza de fato, tão pouco de direito. Que tudo se realize no ano que vai nascer, no Ano Novo, é a irrealização do Ano Novo. A cada momento em que se busca realizações no Ano Novo, ele perde a realidade.
Fazer o Ano Novo ser um momento em que tudo na vida se realiza, ou pode se realizar, ser real, realmente ser, é pôr fim ao Ano Novo num instante, reduzir o tempo seu tempo a um instante da vida num momento no tempo. É fazer do Ano Novo um momento em que tudo se perde e se conquista ao mesmo tempo num instante do tempo. Comemorar o Ano Novo sem comemorar. É fazer do Ano Novo o momento do presente, aqui e agora, sem que ele seja presente aqui e agora. É antecipar o Ano Novo no presente como um momento que é e que vai deixar de ser no momento em que é presente. É fazer do Ano Novo, um tempo líquido, a modernidade líquida no sentido de liquidar toda perspectiva de possibilidade de um Ano Novo, no sentido de que tudo chega ao fim no princípio. Princípio, portanto, que não é ele mesmo na modernidade, não é o princípio do líquido que é a perenidade em sua aquosidade e mutabilidade como o Ano Novo modificando-se a cada ano, portanto, sem se deixar liquidar.
O Ano Novo, este momento em que se comemora a chegada da água sobre a Terra e, consigo, a colheita de uma nova primavera, uma Vida Nova na Terra, se torna um Ano Velho ao ser pensado enquanto tempo na modernidade, um promessa de modernidade, uma novidade, um Ano Novo que liquida o Ano Velho e liquida a si mesmo, enfim, um Ano Novo liquidado. Comemoram-se, assim, as liquidações do Ano Velho com o Ano Novo. O Ano Novo se torna o instante preciso em que o Ano Velho acaba. Comemora-se a morte do Ano Velho, a morte do tempo, a morte da vida e o início de uma nova vida que não é diferente da de antes, posto que cheia de preocupações, a não ser por aquele instante, aquele único instante em que se comemora a passagem do Ano Novo, não o Ano Novo, não uma Nova Vida, menos uma sobrevida, e, sim, uma subvida, uma vida subalterna ao tempo e suas preocupações com as dívidas que acompanham todas as promessas de fim de ano no Ano Novo.
A comemoração do Ano Novo é uma celebração única numa vida cheia de preocupações que o Ano Novo traz logo em seu início, no momento em que o ponteiro do relógio dá meia-noite, divide a noite ao meio, bem como as preocupações, uma parte no Ano Velho, outra parte no Ano Novo. No momento em que as pessoas deveriam se despreocupar, no Ano Novo, é o momento em que mais se preocupam. Não apenas com a passagem dele, também com as dívidas de fim do ano feitas para o Ano Novo logo assim que passa, endividado pelas promessas de que no Ano Novo vai pagar o que deve no fim do Ano Velho. Dívidas de Ano Velho para o Ano Novo às quais se somam as dívidas do Ano Novo que, nem passa, já estão chegando, fazendo da vida endividada logo no primeiro mês de nascido.
Ao comemorarmos o Ano Novo, tudo que queremos é a vida em banho maria, esquentando calmamente nossos corações, sem preocupações, deitados numa água quente sem ferver o nosso juízo, sem liquidar com nossas esperanças. Queremos uma água que nos banhe perenemente como a água de um rio que nos acaricia mesmo quando se faz forte a nos levar para bem longe como a nos dizer que há algo mais à frente, sempre à frente, é só esperar deitado nela até onde ela levar. Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, somente uma vez, pois, a cada vez que nos banhamos no rio, é um NOVA VIDA, ANO NOVO que começa e nunca termina de começar, início sem fim, e, porque nunca tem fim, é esse início que comemoramos no Ano Novo, nele nos fazendo rio e rimos dizendo...
Feliz Ano Novo!

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