IA pesquisa filosófica



Diversas universidades, estão buscando regularizar o uso da Inteligência Artificial na pesquisa acadêmica. No melhor estilo de se não puder vencer o inimigo, junte-se a ele, isto é, seja seu amigo, para poder dominá-lo em vez de não ser dominado por ele, as universidades têm autorizado a utilizçaõa da IA para que ela não domine o meio acadêmico e de tal modo o destrua em sua originalidade por meio de cópias produzidas por linguagem de programação. O objetivo é claro, poder dominar a IA para poder controlar o seu uso indiscrimado nos trabalhos acadêmicos para que não deixem de ser acadêmicos, isto é, não deixem de visar universidade ou universalidade em detrimento da particularidade ou individualidade, e mesmo em detrimento da singularidade ou personalidade. E para isso utiliza-se ou determina-se a utilização de uma IA em particular para se poder contrapor ela a ela mesma no sentido dialético da filosofia. A questão é o que acontece quando se dorme com o inimigo considerado como amigo, quando se dá hospitalidade à hostilidade.

As vantagens da IA são óbvias e imediatas como as vantagens de se fazer do inimigo um amigo e maiores, pensa-se do que as desvantagens que se teria em confrontar a IA enquanto inimiga: ganha-se em produtividade. Em vez de gastar a força, energia e potência numa luta sangrenta, utiliza-as para produzir mais e melhor. Quantos artigos, monografias, dissertações, teses e livros não se pode produzir mais e melhor com a utilização da IA, não totalmente, mas parcialmente, por exemplo, na pesquisa bibliográfica? Quanto desperdício de tempo não se evita com isso na mesma pesquisa bibliográfica? Entre ler muitos textos e grifar as partes interessantes e selecionar as que pretende incluir em outro texto como citação e simplesmente programar a IA para fazer isso, quanto tempo economizado para gastar com aquilo que a IA não pode fazer, ou seja, o artigo, a monografia, a dissertação, a tese, o livro, enfim, o trabalho acadêmica propriamente dito, ou a parte chata e para muitos a mais difícil da pesquisa, escrever o trabalho acadêmica, a única parte que a IA não pode fazer, mesmo que às vezes faça sem ser percebida.

A solução hegeliana, ou cristão, da verdade, do perdão e da reconciliação da universidade com a IA tem seus beneficios imediatos, mas o problema, como em Hegel, é a negatividade do meio ou da mediação, a negatividade da essência da IA, isto é, seu poder de destruição por fora, excluída, e por dentro, incluída, e de que mesmo excluída, ela se insere no meio acadêmico para o destruir e, incluída, ela o destrói mais ainda sem que ele perceba, como um vírus que fica inóculo por muito tempo até que se prolifera de tal modo que aquele que o hospeda nada pode fazer contra sua hostilidade. É verdade, deve-se perdoar e se reconciliar com o inimigo, fazer dele um amigo, afinal, ele pode ser útil enquanto meio para o fim acadêmico, há diversas experiências e provas neste sentido. Mas é verdade também que o inimigo nunca deixa de ser inimigo, mesmo quando se torna um amigo enquanto aliado, e deve-se desconfiar de sua boa vontade e razão, de seu espírito. Não se trata de ver no inimigo o mal, mas tão pouco o bem de verdade, em perdão e em reconciliação, como quer Hegel, ou o cristão.

Há de se pergutnar o que se perde com a utilização da IA, e não simplesmente no sentido platônico, de perda da memória, ou recordação, isto é, o que se esquece ou o esquecimento no caso da escrita ou escritura de um trabalho acadêmico pela IA, ou parte dele como é o caso. O esquecimento é, neste caso, benéfico, pois trata-se de não ter em mente como erudito e não como filósofo centenas de citações a fio aprendidas de cor e salteado em diversas línguas, como se fosse um "grande filósofo" por saber citar Platão e Aristóteles em grego e Kant e Hegel em alemão, ou ainda, Husserl e Heidegger, e tantos outros alemães do século XVIII ao século XX a povoar a geografia e a história da filosofia. É preciso, de fato, esquecer o que disseram os gregos e os alemães, como fizeram os franceses a partir do alemão Nietzsche, o último a lembrar de cor os gregos, para se fazer de fato uma filosofia diferente e repetida, quiçá nova, mesmo com conceitos antigos.

Ao se perguntar o que se perde com a utilização de IA, a resposta é também óbvia e imediata: a pesquisa acadêmica. Paradoxalmente, aquilo para o qual a IA traz mais vantagem, que faz produzir mais e melhor, é o que ela destrói, faz produzir menos, a pesquisa acadêmica. O motivo é também óbvio e imediato: não há pesquisa acadêmica feita por meio de IA, isto é, não há a pesquisa propriamente dita em diferença e repetição. Simplesmente porque não é o pesquisador que pesquisa horas a fio enfurnado num cômodo, numa mesa, num livro físico ou digital aquilo sobre o que pretende escrever em seu trabalhao acadêmico. Simplesmente a IA substitui o trabalho manual e intelectual do persquisador de pesquisar, este verbo que caiu em desuso desde que o "Google" passou a ser o maior meio de se fazer "pesquisa" na Internet, e outros o seguiram imediatamente. Se dissemos que pesquisamos no Google, como antes dizíamos que pesquisávamos numa enciclopédia, ou na Enciclopédia de Diderot e d'Alembert ou das Ciências Filśoficas de Hegel, é por puro eufemismo, pois, na verdade, é o Google, ou Diderot e d'Alembert, ou Hegel, quem pesquisou antes de nós, ou pesquisa para nós antes de nós mesmos pesquisarmos. Nós, praticamente, não fizemos nenhuma pesquisa de fato, nem por direito, menos ainda de modo significativo, isto é, em conceito, uma pesquisa no sentido conceitual do termo.

Nada mais óbvio neste sentido do que a incapacidade para a pesquisa com a utilização da IA ao ponto de proliferarem o ócio produtivo, o não fazer nada porque a IA pode fazer por fazer, ou os outros podem fazer por fazer. Nada mais capitalista do que IA neste sentido por se poder explorar o trabalho das máquinas e dos outros, antes e depois delas, para seu próprio benefício. A IA não é simplesmente um meio de fazer pesquisa, ela faz a pesquisa, e transforma os outros em pesquisadores dela, isto é, em seus meios de pesquisa. Cada trabalho acadêmico produzido por alguém se torna o trabalho da IA na medida em que esta faz a pesquisa deste por alguém que não faz nenhuma pesquisa.

Bem entendido, o que a IA faz atualmente o Google e qualquer buscador da Internet já faz há muito tempo em termos gerais ou de modo universal, mas nunca de modo tão particular e até mesmo de modo singular e personalizado como a IA faz atualmente ao ponto de ser confundido com o trabalho singular de uma pessoa, que é, ademais o objetivo da IA, não esqueçamos isto. Engana-se quem pensa que a IA pretende substituir o trabalho propriamente dito de alguém, a pesquisa aqui e agora no caso, ela pretende substituir aquele que trabalha, isto é, alguém, o pesquisador aqui e agora também no caso. E não o pesquisador de modo individual como aquele que trabalha tal como uma máquina, e pode ser substituído por ela, mas o pesquisador como uma pessoa singular como a única que pode fazer tal trabalho, no caso, tal trabalho acadêmico, o pesquisador no mais intimo do seu trabalho de pesquisa cujo resultado é seu trabalho acadêmico. Em outras palavras, se a subjetividade em sua objetividade no sentido hegeliano é aquilo que define a pesquisa acadêmica, é ela que é substituída pela IA, não o trabalho de um sujeito em particular, nem o resultado do trabalho de um sujeito em particular, isto é, o objeto, menos ainda o sujeito e objeto do trabalho de modo universal, o "humano". É subjetividade e objetividade do "humano", a essência deste, seu em si e para si, em sua afirmação absoluta, porém, sem a (de)negação absoluta de sua essência por Hegel, que a IA pretende substituir, e já está substituindo.

A pesquisa é a essência e existência da academia, aquilo sem a qual a academia não existe. No momento em que a IA substitui a pesquisa acadêmica, ainda que em parte, pela pesquisa da IA, ela deixa de ser uma pesquisa acadêmica e passa a ser pesquisar no Google, ou como diz girialmente, dar um Google. Muitos e melhores pesquisas há de serem feitas pela IA e com a IA na universidade de modo acadêmico, mas nenhuma propriamente acadêmica. A pesquisa não pertence mais propriamente a academia, ou seja, não é o resultado de um exercício muscular e neural em diferença e repetição que aumenta em intensidade a força, energia e potência acadêmica da universidade contra tudo e todos que pretendem destruí-la. Ela o resultado de uma atrofia muscular e neural crescente em identidade e representação que diminui a intensidade da força, energia e potência acadêmica da universidade cada vez menor em saúde, cada vez menos sã, como um corpo que cai, e uma mente que padece sem força, energia e potência para ficar de pé.

Se outrora se queria quebrar, pôr abaixo os muros da universidade para que ela se relacionasse com o seu entorno, o que está fora dela, que a pesquisa acadêmica ganhasse o mundo e o mundo ganhasse com ela, aqui e agora, não há muros que impeça que o mundo da IA ganhe a universidade e ela não exista mais no mundo virtual a não ser como a lembrança de um espaço e tempo em que se fazer pesquisa era coisa da universidade, de um pesquisador acadêmico empedernido, envolto em livros, letras e números, um fóssil ambulante, um dinossauro spielberguiano, um velho decrépito querendo parecer jovem disposto em seu espírito científico e filosófico a descobrir o mundo, sem IA, enfim, um nerd ou uma traça com um cú de ferro.

Talvez se pense que há algum saudosismo da pesquisa acadêmica propriamente dita como original diante de uma cópia feita pela IA. Contudo, não há pesquisa acadêmica original, tão somente cópias, ou melhor das hipóteses, simulacros de pesquisas acadêmicas. O que se coloca em questão não é uma diferença do original e da cópia, o que se pretende evitar utilizando também a IA, é a diferença mesma das cópias, ou simulacros, de não haver diferença e repetição alguma entre pesquisa acadêmica e pesquisa de IA, ou do Google. A IA não diferencia e não repete, eis a questão. Ela é a pura identidade e representação do mesmo e da negação do mesmo. É a diferença e repetição menos forte, mais fraca, com menos energia, porque gasta muito pouca força e energia muscular e neural humana, apesar de muita energia natural, menos potencial acadêmica. 

O que há e haverá no futuro com a IA, e isso se pode dizer com certeza econõmica, é mais e melhor pesquisa acadẽmica, mas não em força, energia e potencial acadêmico, pois a energia, força e potencial natural utilizado por ela é senão mais desperdiçado do que aproveitado. Gasta-se mais água, uma hidrelétrica inteira, mas se produz menos com ela em termos de força, energia e potencial humano. Um ser humano com um copo d´água, um lápis, ou caneta, ou teclado ás mãos desperdiça menos água e a utiliza muito mais para manter sua essência e existência. A economia de água que se tem com o humano, e com o que não é humano, é ainda mais benéfico do que o desperdício de água com a IA e sua utilização, pois não serve nem para o humano se tornar mais humano, nem o inumano se tornar mais inumano. É simplesmente uma água jogada fora da bacia do mundo, do ser, da realidade.

P. S. Este texto não foi feito por IA. Mas mesmo se fosse feito, quem poderia saber? Alguém sempre poderár dizer que um travessão e uma vírgula ou por não ter sido revisto denunciam que foi feito por IA, o que demonstra o quão ignorante, ou idiotas como disse Umberto Eco, as pessoas se tornaram com o uso das tecnologias da informação antes mesmo da IA dominar estas e dominar a inteligência das pessoas fazendo com que elas não saibam mais julgar ou terem consciência do que é certo nem errado até mesmo em relação á grafia, e que mesmo o erro é bem-vindo graficamente, como se o errado fosse propriamente humano, porque este erra, e o correto fosse propriamente a IA, porque esta pressupostamente não erra, segue as leis dos robôs de Asimov, assim como um deus não erra para os religiosos. É mesmo em sentido religioso que a IA se torna mais problemática por alimentar o fanatismo ao substituir a subjetividade e objetividade das pessoas por uma crença ou fé cega ao crerem e terem mais fé mais no que é dito por meio da IA do que é dito por elas mesmas por meio de um julgamento crítico ou de uma consciência do que é certo e errado. Em outras palavras, creem tanto no tio do Whatsapp quanto em seu deus, principalmente, o cristão, do que em si mesmas num puro niilismo de suas vidas que, para elas não faz nenhum sentido mais sem as tecnologias e, sobretudo, sem a IA, o novo e mais antigo Deus ex machina.

P. S. Há um meio simples de descobrir se este texto foi feito ou não por IA sem precisar de outra IA...

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